Apolo e Jacinto
- Caio Calaça Machado

- 8 de jun. de 2020
- 3 min de leitura

Apolo sempre foi um deus de coração apaixonável. Afinal era o deus da poesia. O que é a poesia sem amor?
Apolo teve vários amantes durantes sua vida imortal. Um especial. Seu nome era Jacinto.
Certo dia estava Apolo sobrevoando à Terra em sua carruagem de fogo, era um dia calmo, poucas nuvens no céu. O deus resolveu fazer uma parada para esticar as pernas. Pousou sua carruagem debaixo de uma macieira. Saiu da carruagem e se espreguiçou e conjurou uma maça que apareceu em sua mão. Deu uma mordida e ficou observando os mortais.
Os mortais estavam tendo um dia normal, alguns caminhavam com seus cachorros, outros sentados lendo livros enquanto um grupo jogava um jogo com uma bola. Havia muitos mortais lindos, ele já havia saído com vários. “Michelangelo foi o seu preferido, era bom de cama.” -Se gabava Apolo para os outros deuses.
Já estava ficando tarde, Apolo estava quase se preparando para seguir viagem quando viu um mortal que tirou completamente o seu senso de direção. Era um homem forte e musculoso, abdome trincado e pernas fortes. Apolo se apaixonou rapidamente, ele precisava cortejar esse mortal. Precisava dele. O deus então se tornou visível e temporariamente humano e foi falar com o rapaz.
Após uma rápida troca de conversas e flertes os dois começaram um relacionamento amoroso. Era um casal fofo de se ver. Era amor verdadeiro. Apolo sempre seguia Jacinto aonde quer que ele fosse.
Entretendo, Jacinto também era cortejado pelo músico Ramires e pelo Elemental do ar Zéfiro, que o conhecera antes do deus do Sol. Podiam, eles se colocarem contra Apolo? Ramires acreditava que sim. Então, para se livrar do poeta, Apolo diz às musas que o músico se gabava de cantar melhor do que elas. As musas, iradas e vingativas, lhe retiraram a voz a visão e a memória. Foi o fim de Ramires.
Zéfiro, que muito bem conhecia os poderes de Apolo, permaneceu contrariado. Porém, um ódio surdo crescia em sua alma, despertando-lhe a vingança.
Certo dia, os dois divertiam-se com um jogo e Apolo, impulsionando o disco, com força e agilidade, lançou-o muito alto no ar. Jacinto contemplou o disco e, excitado com o jogo correu a apanha-lo, ansioso para fazer sua jogada. Era oportunidade que Zéfiro — amargurado pela preferência de Jacinto por Apolo — aguardava. O vento oeste, escondido em meio à folhagem de uma árvore, agarrou o disco em pleno voo, e lançou-o contra o crânio de Jacinto, que caiu morto no mesmo instante.
Apolo, assistindo tudo aquilo, correu até o corpo inerte do amado, levantou-o nos braços, mas a cabeça sem vida do seu amante tombou sobre os ombros do deus da poesia. Apolo como também era conhecido por deus da cura tratou-se de usar seus poderes para tentar curar o jovem e conservar a vida, mas tudo em vão. Ele podia escutar a alma seguindo para o mundo inferior. — Morrestes, Jacinto — Exclamou Apolo —, roubado por mim de tua juventude. O sofrimento é teu, e meu o crime. Pudesse eu morrer por ti! Como, porém, isto é impossível, viverá comigo, na memória e no meu canto. Minha lira há de celebrar-te, meu canto contara o teu destino e tu te transformará numa flor gravada com minha saudade.
Enquanto Apolo falava, o sangue que escorrera para o chão e manchara a erva deixou de ser sangue; uma flor de colorido mais belo que a purpura tíria nasceu, semelhante ao lírio, com diferença de que é roxo, ao passo que o lírio é de uma brancura prateada. E isso não foi o bastante para o deus. Para conferir ainda maior honra, deixou seu pesar marcado nas pétalas, e nelas escreveu “Ai! Ai!”, como até hoje se vê. A flor tem o nome de jacinto e, sempre que a primavera volta, revive a memória do jovem e lembra o seu destino.




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